sábado, 20 de junho de 2009

Bunda de burguês!

Estava eu, dias desses, num daqueles papos sem pretensão nenhuma, com um amigão, falando sobre minha ida a determinada loja.
Comentei com ele que olhei para determinada peça de roupa e me lembrei dele, desse meu amigo, pois achei que a roupa ficaria bem nele. Ao que ele me respondeu, com o título desta crônica.
A resposta me desconcertou um pouco, pois me pareceu que tinha um “que” de sarcasmo como se o uso de uma roupa bonita tornasse a pessoa um burguês no sentido pejorativo do termo.
E é por isso que resolvi escrever sobre nossas necessidades materiais e espirituais e a relação entre elas.
Claro que o farei dentro dos meus poucos conhecimentos da Doutrina Espírita, pois são nos princípios dela que tenho pautado esta minha vivência.

A ciência nos ensina que o nosso corpo físico é formado a partir do encontro do espermatozóide com o óvulo e a Doutrina Espírita acrescenta que ele é formado deste encontro e mais o Espírito, ser pré-existente, que se liga ao corpo através do perispírito (corpo que envolve o Espírito), constituindo assim o homem.
Sendo o corpo e alma de naturezas diferentes e necessitando um do outro para desenvolver-se, o perispírito é o elemento indispensável para que ambos se relacionem e se influenciem.
Nosso corpo, sendo material orgânico que nasce, cresce, reproduz-se e morre, para o exercício de suas funções, dentre as quais manter seu funcionamento e sua sobrevivência tem atributos, aptidões e necessidades próprias, que ele busca satisfazer, automaticamente, de forma instintiva.
Já a nossa alma, ser espiritual, que sente, pensa, decide, age e se expressa no mundo material através do corpo, tem também atributos, aptidões e necessidades que lhe são próprias, que a impulsionam a uma evolução contínua, de forma consciente e inteligente.
Enquanto o nosso corpo tende a satisfazer-se, a alma, como ser moral tem de desenvolver-se, educando-se usando os recursos compatíveis à finalidade desse desenvolvimento, que é alcançar a perfeição possível e a felicidade.
E o nosso corpo é o instrumento que a alma tem para esse trabalho.
Enquanto a existência durar, ambos devem trabalhar juntos, procurando harmoniosamente viver em equilíbrio.
Na Introdução, em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec escreve: "O Espírito encarnado está sob a influência da matéria. O homem que supera essa influência pela elevação e purificação de sua alma aproxima-se dos Bons Espíritos, com os quais estará um dia. Aquele que se deixa dominar pelas más paixões e põe todas as suas alegrias na satisfação dos apetites grosseiros, aproxima-se dos Espíritos impuros, dando predominância à natureza animal".
Percebe-se nestas palavras do Codificador, que o homem sofre a influência de duas naturezas: a do corpo e a do Espírito e que este pode sobrepor-se à influência daquele, apesar de ambos estarem interligados, sendo afetados, reciprocamente, pelo que acontece com um ou com outro.
Mesmo vivendo sob a influência de naturezas diferentes o homem consciente de que é Espírito imortal, mas não sendo ainda obra acabada, tendo, então, de chegar à completude através do desenvolvimento dos seus atributos, tem de assumir sua evolução, com discernimento, no uso dos recursos que o viver na Terra lhe propicia, dentre os quais, o corpo se destaca como imprescindível, necessário.
A vida corporal, sendo apenas um instrumento para o Espírito imortal, deve ser vivida em função desse Espírito e não em função do corpo, que deve, no entanto, ser amado, cuidado, satisfeito nas suas necessidades.
Entendo que devemos encarar a vida terrena, tendo como ponto de partida, a vida espiritual, que é infinita.
Se assim o fizer, daremos à vida material, aos seus acontecimentos e as suas necessidades o seu real valor, sem exageros e sem excessos.
O corpo físico que irá desfazer-se depois da morte será valorizado pela sua importância para a evolução do Espírito.
Não será menosprezado, depreciado, nem colocado acima do ser espiritual, que é o que realmente importa, pois é ele que estará eternamente no exercício da vida!
Se possuirmos essa consciência da nossa imortalidade, também saberemos conscientemente usar com discernimento as benesses que darão satisfação às necessidades do corpo e aí não importa se feio/bonito, doente/sadio, inteiro/deficiente, burguês/trabalhador, pobre/rico, importa sim a sua valorização como um bem valiosíssimo para o Espírito imortal.
Cuidar de nosso corpo com carinho, com dedicação, com discernimento e gratidão pela oportunidade que ele nos dá de manifestarmo-nos, de expressar nossas emoções, nossos sentimentos, nossos propósitos e ideais, de mostrar nosso progresso material, compreendendo-o como um instrumento de evolução do nosso Espírito imortal.
Assim, depois dessa reflexão sobre a importância de se valorizar os bens que dão satisfação ao nosso corpo físico e conseqüentemente de nosso Espírito, desejo deixar expresso, ao meu querido amigo, que aquela peça de roupa que eu disse que ficaria bem nele, realmente o deixaria com uma bunda de burguês, mas que isso em nada anula o seu progresso, não desmerece as suas conquistas e principalmente não fere a sua individualidade Espiritual.

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