Sempre ouvi que Amor Platônico é ficar desejando alguém, sem nunca conseguir concretizar esse amor.
Quanto engano!
Conhecendo um pouquinho do Platão, de seu pensamento e principalmente sua obra “O banquete”, é possível entender o que ele pensa do Amor!
Platão, cujo nome verdadeiro era Aristócles, recebeu o apelido que o tornou conhecido, na juventude, por causa da sua compleição física.
Platão é um termo grego que quer dizer ombros largos.
Um dos aspectos mais importantes da filosofia de Platão é a sua teoria das idéias, através da qual ele procura explicar como o conhecimento humano acontece.
Segundo esta teoria, o homem desenvolve uma passagem progressiva do mundo das aparências ou das sombras para o mundo essencial ou das idéias, resultando desse processo, o conhecimento.
Das idéias de Platão, o Amor Platônico é o mais incompreendido.
Platão entende o amor como um princípio cósmico.
Ele afirmou que o amor é uma escada com sete degraus, que vão do amor por uma pessoa até o amor pelas realidades superiores do universo.
Todo o livro O Banquete é dedicado ao amor em seus diversos aspectos.
Ele diz que, mesmo que eu me apaixone por uma pessoa, atraído por suas qualidades, fixar-me exclusivamente nessa pessoa é permanecer no primeiro degrau de uma escada que possui muitos outros.
O passo inicial nessa escada, para a maioria de nós, ocorre através do amor físico.
Platão não nega o corpo ou o amor físico.
Ele apenas afirma que, se eu deixar de ampliar esse relacionamento e não subir até os outros seis degraus, vou permanecer estagnado.
Os passos seguintes são um desdobramento natural da condição humana.
Durante todo o diálogo existente em O Banquete, Platão responde, através de diversas figuras da sociedade ateniense, a natureza, o sentido e as implicações do Amor.
Para Platão, o amor “é uma loucura que é dádiva divina, fonte das principais bênçãos concedida ao homem”.
É uma visão exaltada do amor entre os sexos.
Ele emprega o termo loucura para se referir ao primeiro degrau, porque, sob a influência da paixão física, perco de vista perspectivas e prioridades.
A alma anseia tanto pelo contato com a outra pessoa que perde o juízo.
Quando estou apaixonado, é como se o universo estivesse concentrado na outra pessoa.
Isso não é necessariamente falso.
Platão diz que, em certo sentido, o universo realmente está nessa pessoa.
Só preciso transformar essa dimensão e ver não apenas a pessoa, mas o universo nela.
Ao amar uma pessoa estou amando o universo e vice-versa. Esta observação me leva a pensar que Platão estava falando do amor genuíno, sem egoísmo, sem apego.
O relacionamento físico não é visto unicamente como um meio de obter prazer, mas sim o ser amado como a fonte do amor autotranscente, incondicional.
O amor platônico é tão amplo e universal que, embora comece como amor pela forma bela, termina com o amor pela própria beleza, um princípio eterno do universo.
Sou levada, de um modo muito natural, a perceber que todas as formas belas são dignas de amor, se torna sensível a todas elas.
Platão emprega constantemente o termo beleza; a beleza das idéias toma-se tão ou mais real que a beleza física.
Platão usa o conceito de beleza vinculado ao amor, me dizendo que quando amo percebo mais facilmente a beleza.
Quando permito que o amor me leve para frente, quando consigo enxergar a beleza em tudo o que me rodeia, estou saindo do particular e partindo em direção do todo, do coletivo.
A partir disso estou pronto para enxergar a beleza da mente, do todo, até mais que a beleza da forma.
Assim posso então amar o todo, mesmo que sua forma física não seja tão graciosa.
Isso se traduz numa progressão do concreto para o imaterial, sob a influência e inspiração do amor.
Então o primeiro degrau da escada é o amor físico.
O segundo degrau será amar todas as formas físicas belas.
O terceiro degrau é amar a beleza do todo, independente da forma física a que ela esteja associada.
E chego ao quarto degrau desta escada do amor: é a ética, o amor pelas práticas belas.
Envolve integridade, justiça, bondade, consideração. É um degrau abrangente e nem sempre fácil de concretizar.
No quinto degrau estou demonstrando amor através das instituições belas.
É a maneira como a sociedade funciona quando suas instituições estão em equilíbrio e harmonia.
O bem comum é o interesse primordial.
No sexto degrau me apaixono pela ciência, que articula não só as leis que governam o indivíduo, a família e a sociedade, mas algo que transcende o meio local. A beleza da ciência é universal.
A ciência apresenta beleza, harmonia e ordem. Posso me apaixonar por isso tão profundamente quanto por um homem ou por uma mulher.
Einstein (e me parece que Galileu também) afirma que, ao articular as leis do universo, está estudando a lógica, a ordem e a beleza da mente de Deus.
No sétimo degrau, depois de passar por todos os degraus, ocorre uma diferença de gradação; subitamente vejo não a manifestação da beleza, mas a beleza em si.
Esse é o ponto alto dos sagrados mistérios.
O amor se expressa como a manifestação eterna da beleza em si. Me apaixono pela essência que torna belas todas as coisas.
Segundo o discurso de Diotima, em O Banquete, "apenas em tal comunhão, mirando a beleza com os olhos da mente, o homem será capaz de suscitar não projeções de beleza, mas realidades (pois ele entronizou não uma imagem, mas uma realidade), produzindo e nutrindo a verdadeira virtude para tornar-se o amigo de Deus, um ser imortal.
Para mim, ainda nos primeiros degraus, ainda tão apegada ao amor físico, isso soa como um contato visionário com uma realidade ou verdade suprema.
É uma espécie de visão.
É como ver o sol na alegoria da caverna, em A República. Depois de viver de costas para o sol e ver apenas sombras na parede, subitamente vejo a luz!
É uma fusão com a forma amada, a integralidade; é uma espécie de imortalidade.
O amor mundano e físico é o início da busca da totalidade. O final é a visão do que está por trás do universo, do que o faz girar.
Portanto, no sétimo degrau da escada do amor, apaixonar-se é unir-se à origem do ser.
É uma espécie de doutrina mística do amor, e esse é o amor platônico.
Trata-se de um ponto de vista comovente e inspirador, que transcende enormemente a idéia de ficar de mãos dadas com alguém, de concretizar um amor físico.
Entendo que Platão sustenta que uma união sexual intensa e profunda é a antecipação do êxtase da união com a realidade espiritual divina que está por trás do universo.
É a imortalidade do homem simples.
É uma manifestação, mesmo que reduzida, da união divina.
Por isso, os seres humanos certamente valorizam a experiência do amor e do sexo.
Por meio de um amor sexual intenso, cada um de nós experimenta por breves momentos a autotranscendência e a abnegação.
No degrau número sete da escada, essa autotranscendência, que era breve e momentânea, transforma-se no estado natural onde passo a habitar o tempo inteiro.
O "eu" desapareceu no segundo plano.
E ficou o primeiro plano onde brilham as verdades eternas, o bem e a beleza, entendidos como indissolúveis e evidentes para a alma capaz de vê-los.
AMOR PLATÔNICO: um dia chegarei ao sétimo degrau. Por hora ....
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