quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Culpa

"( ... ) é sempre uma nesga de sombra eclipsando-nos a visão. André Luiz


Tenho me debatido em questionamentos interiores e mesmo com outras pessoas sobre alguns sentimentos que me parece estarem enraizados em nós e que, no meu entendimento, vem de nossa “cultura cristã”.
Também, percebo, em nós, uma certa resistência em analisar, à luz da razão, conceitos como pecado e culpa.

Utilizando o preceito da razão, que a Doutrina Espírita nos traz como fundamento para fé, procuremos fazer uma relação entre o pecado e a culpa para verificar que este processo gera medo e temor e nos leva a conter nossas ações, não pela educação, mas pela ameaça de um “castigo”.

Será essa a maneira adequada de obediência ao Evangelho?
É desta maneira que vamos disseminar o amor entre os homens?
Busquemos a origem da visão da culpabilidade, para posteriormente nos concentrarmos numa busca alternativa.

Lembremos que, quando Moisés retirou seu povo do Egito os hebreus estavam completamente influenciados pela cultura egípcia, e a idéia de um Deus único era estranha e não havia qualquer disciplina entre eles.
Os hebreus constituíam-se num povo rebelde, acostumado à prática do roubo, do adultério e da adoração a vários deuses.
Por serem um povo primitivo, eram incapazes de espontaneamente modificar sua conduta.
Não haveria outra maneira de levá-los a abandonar os velhos hábitos a não ser pela adoção da imagem de um Deus punitivo, um Deus que se irava e que castigava implacavelmente aqueles que não obedecessem a “sua Lei”. Era o tempo do “olho por olho, dente por dente”.

Quando da vinda de Jesus à terra, sua mensagem falava de um Deus tão amoroso que ele o chamava de Pai.
A mensagem para os povos não era mais o antigo conceito do Deus vingativo, mas do Deus que perdoava e que nos queria vivendo como irmãos, perdoando e oferecendo a outra face, a outra maneira de fazer as coisas.

Mas a igreja “evoluiu” e na Idade Média, ela resgatou o conceito mosaico do pecado, da culpa original, e a idéia de que os pecadores precisavam ser castigados como forma de remir a culpa.
Esta igreja também fortaleceu a idéia da ação do demônio na vida dos homens e de que se não “pagássemos” pelas nossas faltas estaríamos irremediavelmente condenados ao fogo do inferno. Essa concepção foi transmitida através das gerações e chegou até os nossos dias, onde continuamos temendo os castigos de Deus.

É através da razão, que a Doutrina Espírita recompõe a idéia de um Pai amoroso e com uma visão amadurecida mostra um outro entendimento sobre o pecado e a culpa, lançando luz onde antes havia escuridão e trazendo conforto e esperança aos homens.

É com o advento desta Doutrina que apagamos a noção de pecadores culpados e passamos a assumir o papel de seres em evolução, ainda imperfeitos é verdade, mas rumando, indubitavelmente para uma condição superior onde não mais cometeremos os erros passados e atuais.

Alguns podem julgar esta posição absurda, mas então vamos parar um minuto e nos perguntar: Quantos de nós, que somos humanos, ao invés de darmos nova oportunidade a nossos filhos, quando estes fazem algo que julgamos errado, os expulsamos de casa e os condenamos a viver eternamente com sua culpa?

Se é assim que acontece conosco, então por que Deus que é o infinito Amor agiria de uma forma pior do que a nossa? Afinal não foi Jesus quem disse: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 7:11).

A culpa não encontraria abrigo em nossa alma, se tivéssemos uma ampla fé no Amor de Deus por nós e se acreditássemos que Ele habita em nosso âmago e sabe que somos tão bons e adequados quanto permite nosso grau de conhecimento e de entendimento sobre nossa vida passada e presente.


A luz lançada pela Doutrina Espírita, nos faz raciocinar e permite que apaguemos de nossas mentes a idéia da culpa.
Somos responsáveis pelos nossos atos e devemos responder pelas nossas ações, não através do famigerado castigo, mas através de mecanismos que nos levam à conscientização de nossas atitudes equivocadas e da reparação desses atos.

O equívoco faz parte do processo de aprendizado e como seres em evolução precisamos vivenciar as mais diversas experiências para alcançar o progresso espiritual, e nessa jornada de luz é natural que nos enganemos, mas, é imprescindível que nos esforcemos para crescer.

A Doutrina Espírita nos dá o entendimento de que o objetivo da lei divina não é punir, mas, educar, fazendo com que cada indivíduo evite repetir seus erros pela compreensão de que sua atitude passada foi inadequada e que é necessário uma mudança de conduta.

Nos faz compreender que as fases deste processo de mudança são:
o arrependimento ou seja, o momento em que reconhecemos a nossa falha de conduta;
a expiação, que é quando vamos refletir sobre o que fizemos;
e finalmente a reparação, que é o ápice deste processo, pois é quando alteramos nossos passos ou corrigimos o ato errado.

Observemos a lógica racional desta proposta: nela todos saem enriquecidos; nós, pelo amadurecimento, e o outro (a quem porventura prejudicamos), por ser valorizado ao consertarmos os nossos enganos.

Enfim a Doutrina Espírita nos dá o entendimento de que a vida é uma dádiva de Deus, que nos concedeu-a, para que alcancemos a felicidade, e não para vivermos com culpa.

É, sim, necessário que trabalhemos para alcançar a comunhão com Ele, na certeza de que: “Todo homem podendo corrigir as suas imperfeições pela sua própria vontade, pode poupar-se dos males que delas decorrem e assegurar a sua felicidade futura” (o Céu e o Inferno, Cap. VII).


Nil
Vila, 31/07/2009

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