MARIA NILCÉIA
O reencontro com a espiritualidade
História de vida de quem ajudou a construir a universidade e redescobriu os valores humanos
Por L.J.Sardá
lj.sarda@unisul.br
A menina miúda de passos largos atravessa a rua sem olhar para os lados. Chega à mercearia A Catedral, cumprimenta a patroa, dona Valga Búrigo, e sai com os braços carregados a distribuir compras aos clientes. Os seus 10 anos não a intimidam. E só quebra o silêncio quando, na volta lenta e cansada, pisa em casa e entrega os cruzeiros trabalhados à mãe Esther.
Hoje, vencido quase meio século de vida, Maria Nilcéia Juncklaus Preis vive taciturna na espiritualidade, em busca de explicações para os mistérios das relações humanas, que já lhe aplicaram muitas lições amargas. E concorda com Augusto Comte, para quem os interesses pessoais nunca determinam amizade duradoura.
Aos 14 anos, teve a carteira de trabalho provisória assinada pela antiga Fundação Educacional do Sul Santa Catarina, atual Unisul, para trabalhar de faxineira. Não rejeitava outros serviços, e assim também fazia café, atendia ao telefone, recepcionava pessoas e nas férias escolares chegou a ser vigia do prédio vazio, hoje a Casa da Cidade, mas que abrigou por alguns anos a Fessc, bem no centro de Tubarão. Na tragédia que inundou a cidade e matou 200 pessoas, a garota irrequieta já se tornara mocinha e pelo seu espírito de solidariedade não hesitou em ser voluntária por 40 dias em socorros às vítimas. Trabalhou de cozinheira no Corpo de Bombeiros para alimentar centenas de desabrigados, e ajudou a Caixa Econômica a acelerar a liberação do Fundo de Garantia. Poderia, como fizeram muitos dos seus amigos, exilar-se em Florianópolis, mas esperou a água baixar para ajudar os pais na construção de uma nova vida, no bairro Oficinas.
O pai Raulino Juncklaus suava na boléia do caminhão para manter a grande família de oito filhos, com a ajuda da esposa Esther, que herdara dos avós italianos a arte da cozinha, produzindo a massa caseira para o macarrão e a polenta. O raditche sobrava nos fundos da casa, onde as galinhas criadas soltas garantiam o reforço com ovos e carne.
O professor Romualdo Muller era duro na queda. Até a ponta mal feita do lápis justificava o castigo de ficar virado para a parede por uma hora. Contudo, o ensino público nas escolas isoladas tinha a qualidade refletida na competência do mestre.
- Quem ainda não se lembra dos professores Romualdo, Elenor Brasil, Alda Hülse, Brandina Garcia, Conceição Fernandes, Robélia Faraco, Valquíria? Eram nomes de respeito nas escolas e que se diferenciavam nas comunidades. E é isto que falta hoje à escola pública, sentencia Nilcéia.
Aos 7 anos Maria Nilcéia já alfabetizada, foi morar com os avós em Tubarão, para onde, dois anos depois, mudaram-se também seus pais, em busca de uma vida melhor. Com apenas 10 anos, a menina irrequieta e disciplinada experimentou seu primeiro emprego, entregando compras da mercearia A Catedral. “Era pesado, mas gostava de fazer pela convicção de estar ajudando meus pais”, lembra com emoção.
Para conciliar os estudos com o trabalho, a escola noturna foi a única opção. Seus irmãos Maria Tereza, Maria Eugênia, Maria Lúcia, José Raulino, Moacir e Osvaldo, ainda na tenra idade, tiveram a chance de entremear as atividades caseiras, ordenadas pela mãe, com entretenimento de infância, ensejada pela pequena cidade de Tubarão, onde predominava a convivência entre famílias, ainda atreladas aos legados italiano e alemão, comum até o final dos anos 70 no interior catarinense.
Nilcéia foi ter noção de consumo quando a escassez de alimentos, provocada pelo golpe militar de 64, agitou as famílias. “Caminhões do Exército circulavam na cidade para entregar alimentos”, lembra, embora ainda criança. A vida simples não a despertou à vaidade. No início da década de 70, o tio Osvaldo Della Giustina convidou-a, embora com 13 anos, para ajudar na limpeza da Fundação Educacional do Sul de Santa Catarina, que se instalara provisoriamente em um prédio no centro da cidade. “Mas ele só assinou minha carteira provisória (de menor) de trabalho quase um ano depois”, alfineta Nilcéia. De balde, panos e vassoura, a menina agitada percorria salas e corredores, ao mesmo tempo em que era convocada para atender ao telefone e fazer café. “De tudo se fazia um pouco, até porque a Fessc estava se afirmando como a primeira instituição de ensino superior do sul do estado”. Já aos 15 anos, ela foi auxiliar Nilton Rocha na contabilidade e pagamentos e cuidar da recepção, onde também atendia ao telefone.
- O equipamento telefônico era de pinos. Para cada atendimento encaixava-se o fio. Às vezes as linhas se cruzavam, rememora com sorrisos.
À noite, cursava a Escola Técnica de Comércio, cujo diploma outorgou-lhe o direito de adquirir a carteira de contadora junto ao CRC. Em seguida, ingressou na faculdade de Administração, desistindo em razão do casamento e da reprovação em matemática, lavrada pelo professor Zé Ramos. Com o nascimento da filha Heloísa, Nilcéia optou por graduar-se em Orientação Educacional. “Serviu para eu educar meus filhos e crescer dentro da Unisul”, justifica.
Durante oito anos foi orientadora educacional do Colégio Dehon, onde também lecionou OSPB (Organização Social e Política Brasileira) e técnicas comerciais.
- Com os estudos e sempre investindo em cursos de especialização, fui galgando funções e praticamente adquiri experiências em todas as áreas da universidade - contabiliza Nilcéia.
Com a morte do marido Lúcio em 1989, Nilcéia desnorteou-se, sem, contudo, perder o destemor de também assumir a paternidade na criação de Heloísa, com 9 anos, e de Rafael, 6 anos. Quando se pensava que o novo desafio a consumiria na vida familiar, Nilcéia ingressou na faculdade de Direito por edital de reingresso.
- Ainda jovem, eu tentei em vão cursar Direito na PUC de Porto Alegre. Rodei no vestibular. O meu retorno aos estudos foi uma necessidade de preencher o vazio que se agigantava com a morte do marido - pondera.
Contudo, o ingresso por edital diferenciava Nilcéia e mais seis alunos dos que haviam conquistado vaga por vestibular. “Foi uma tortura! Chamaram-nos de pára-quedistas e nos alijaram por muito tempo”, lamenta. Mas, no final do curso, a recompensa: ela foi escolhida a “amiga da turma”. Mais tarde, concluiu uma pós-graduação em Direito e publicou um livro, sem deixar suas funções de dirigente pedagógica. Em meados dos anos 90, assumiu a direção do Centro de Ciências Sociais Aplicadas e, em seguida, a do campus de Tubarão.
NOVOS TEMPOS, VELHAS ANGÚSTIAS
O rigor da gestão, interpretado na maneira de cobrar ou de atribuir tarefas, rendeu problemas de relacionamentos pessoais à professora Maria Nilcéia no exercício da direção do campus de Tubarão. Mas a herança disso tudo, que ela não inventariou, resume-se no comportamento enigmático de pessoas “que eu tinha como verdadeiras”.
Ela incorpora a visão de Nietzsche para admitir que com todo o valor que possa merecer o que é verdadeiro, desinteressado, é possível que se deva atribuir à aparência, à vontade de engano, ao egoísmo e à cobiça um valor mais alto. E nisso reside as suas angústias.
- Ao deixar a direção do campus, pensei enxergar o que era sincero no meu relacionamento com as pessoas. E foi aí que eu senti o quanto as pessoas são vulneráveis em sua própria ambição - confessa.
Como poetizou Drummond, “na vida de minhas retinas tão fatigadas nunca me esquecerei de que no meio do caminho tinha uma pedra”. Nilcéia mergulhou firme na espiritualidade para remover os obstáculos, sem esconder que a tristeza de ver muitas verdades adulteradas “me fez chorar, muitas vezes”.
- Mas tive a percepção de que eu encontraria respostas no mundo espiritual. Abandonei o lado material para compreender o ser humano sob o manto da espiritualidade. Hoje, posso garantir que vivo com a paz, na esperança diuturna de ajudar as pessoas - pontua Nilcéia.
Alegre com a neta – “não tenho mais o compromisso de educar; apenas de conviver com ela” -, Nilcéia reencontrou o lado humano para redirecionar sua vida. Com o término do segundo casamento, “redescobri o quanto a vida pode nos encantar, desde que eu saiba enxergar os valores humanos”. Ela aprendeu a costurar e hoje produz até enxovais para recém-nascidos carentes, além de fabricar peças artesanais com o objetivo de arrecadar fundos para instituições de menores e de idosos.
As experiências de vida, enriquecidas pelos exercícios espirituais com que valoriza o ser humano na sua essência, livraram-na do divã e de recursos químicos. “Eu poderia ter me transformado em uma senhora caquética, vivendo de remédios. Optei pelo renascimento espiritual, que me faz enxergar os valores do ser humano e os encantos da vida”.
Maria Nilcéia, que aos 7 anos foi morar com os avós, que aos 10 era entregadora de uma mercearia, que aos 13 fazia faxina na Unisul, que aos 33 ficou viúva, que aos quarenta e poucos se redescobriu na espiritualidade, hoje não guarda mágoa. Como diria Drummond, “você é dura, Maria”.
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